Nos Bastidores da Missão:

Empreendorismo e Desafios

Ocorreu-nos contar um pouco sobre os bastidores da história de vida, ou da Autobiografia de Paramahansa Yogananda, publicados em variados livros de seus discípulos diretos. É nossa intenção compartilhar apenas alguns enxertos, para que seus leitores contemplem a totalidade do escritor apaixonado por Deus, mas prático, em se tratando dos escritos e ensinamentos que legaria à posteridade, não somente através da sua organização americana, como também pela da organização indiana fundada antes de mudar para a América.

Do livro Trilogia do Amor Divino, por Durga Mata (1903 a 1993), discípula de Yogananda desde 1929. Trabalhou como sua secretária, tesoureira e membro do Conselho de Diretores da Self-Realization Fellowship/Yogoda Satsanga Society por quase 60 anos, até sua aposentadoria em 1986:

O Mestre, por causa de seu ideal, estava habituado à pobreza e à abnegação.¹  O estilo simples de vida na Índia não necessitava de tantas compras de mobílias, consertos e reabastecimento de suprimentos como nós temos aqui. Obviamente o Mestre percebeu que as condições de vida na América não se adaptavam ao estilo de vida indiano. Ele costumava dizer:

“Na América, sou criticado por usar um hábito de algodão e, na Índia, seria criticado se usasse uma túnica de seda”. Essas e outras condições similares o amarraram ao pesado fardo de ter que ganhar dinheiro para prover sua instituição na América com as necessidades imediatas.

Ele não era um homem de negócios. Teve de aprender pelo método de tentativa e erro para conseguir transformar em sucesso a sua organização, cujas despesas sempre excediam as receitas. Portanto, o Mestre passou por inúmeras dificuldades e sofrimentos, conhecidos e desconhecidos, durante toda a sua vida.

Anos de depressão financeira e anseios atendidos

O Mestre batalhou durante os anos da depressão de 1930 e 1931. Ele recebia e dependia da ajuda financeira que Dr. e Sra. Lewis providenciaram nos anos anteriores, mas essa nova empreitada da administração de Mt. Washington era mais do que eles podiam ajudar sozinhos, então a constante oração dele era para que Deus lhe enviasse um discípulo homem, que fosse rico, honesto, bondoso e, acima de tudo, que tivesse um profundo amor e desejo de entrar em contato com Deus conscientemente. Essa não era uma oração incomum, pois o Mestre sabia da lei Divina que, quando o Senhor envia um de seus mensageiros, também envia ambos os tipos de devotos: aqueles que o ajudarão financeiramente e aqueles que darão seu serviço para ajudá-lo a cumprir sua missão terrena.

Deus respondeu aos apelos do Mestre em fevereiro de 1932, com um de seus diligentes filhos, J. J. Lynn, que em 1951 recebeu o nome espiritual de Rajarsi Janakananda,² para ajudar o Mestre a carregar sua cruz financeira. Rajarsi era tudo aquilo que o Mestre esperava, sim, até mais. Era um prático homem de negócios, humilde, nunca se exibindo com seu talento. Tanto era que foi somente nos últimos anos de vida que o Mestre descobriu que Rajarsi era um mago financeiro, que conhecia o mercado de ações como a palma da mão, pois também era banqueiro, advogado e muito conhecedor do mercado imobiliário, além de numerosas outras capacidades.

Imediatamente após o encontro com Paramahansaji, Rajarsi o aceitou como seu guru e implicitamente confiou nele e o reverenciava como um Cristo. Deus havia respondido às orações do Mestre por um amigo que ajudaria na condução do trabalho divino. Já no seu primeiro encontro, Rajarsi tinha dado uma grande doação para reiniciar a publicação bimestral da revista East-West (atualmente Self-Magazine) e colocou mais anúncios para promover as Lições, a fim de divulgar a salvadora técnica de Kriya para o mundo, por meio da continua exposição do nome da SRF perante o público.

Garantindo a perpetuidade da Self-Realization

Por outro lado, nosso país em 1932-33 estava em uma de suas maiores crises financeiras, Mt. Washington estava com grandes dívidas e com muitas pessoas para alimentar. O Mestre tinha as despesas com viagens e as palestras, a organização estava num período de estagnação e o Mestre não tinha ninguém para cuidar de todas essas coisas ou que fizesse anúncios para atrair novos membros. Temendo uma outra quebra da bolsa de valores, o Mestre vendeu os títulos para amortizar a hipoteca, a fim de manter os lobos afastados de nossas portas. Houve grande benefício para a organização e para as almas que moravam em Mt. Washington com essa atitude do Mestre. Entretanto, foi somente em outubro de 1936, quando o Mestre nos telefonou de Nova Iorque, em seu retorno da Índia, que Rajarsi foi capaz de dizer que o fardo da hipoteca lhe fora tirado dos ombros, bem como muitas outras dívidas que estavam pendentes antes e durante o passeio transcontinental do Mestre.

No início de 1933, o Mestre decidiu não viajar mais em suas campanhas país afora. Queria permanecer na Sede Central e se concentrar em escrever e divulgar o ensinamento por meio do sistema postal, para atrair e treinar mais almas para o futuro da obra. Sua justificativa foi que, quando chegava em uma cidade, ele palestrava e ensinava para centenas, até mesmo milhares de pessoas, mas só podia estar em um lugar ao mesmo tempo, sendo que pelo correio seus ensinamentos alcançariam todos os cantos do planeta.

A mim competia interceder entre o Mestre e Rajarsi quando o Mestre precisava de fundos para seus diversos projetos. Eu conhecia o lado do Mestre na história, mas também sabia o de Rajarsi. Muitas vezes, estive numa encruzilhada, entre ter de pedir dinheiro para Rajarsi, quando sabia que ele não poderia fornecer naquele momento em particular, e o meu profundo desejo de fazer o que o Mestre queria que eu fizesse. Algumas vezes, eu sentia que determinado projeto não iria funcionar, mas ainda assim meu desejo de agradar ao Mestre vencia, e lá ia eu pedir apoio de Rajarsi. Felizmente, apenas uns poucos projetos do Mestre falharam, mas pelo menos tive a satisfação de fazer tudo pelo Mestre e por Deus, sabendo muito bem que tudo que nosso Amado Mestre fazia era pelo trabalho e para Deus.

Nossas mentes americanas podem se questionar por que o Mestre esperava tanto de uma pessoa. A resposta é que nosso Amado Mestre sentia sua unidade com o Criador do Universo, então ele é como um filho que espera abundância de seu Pai Celestial, da Mãe Divina, ou vice-versa; e acontece a mesma coisa no relacionamento entre o Mestre e seu discípulo. O Mestre amava muito Rajasi e o considerava e tratava como um filho. Portanto, sentia-se no direito de pai exigindo do filho o cumprimento de seu destino programado para ser o salvador financeiro da SRF.

Por meio da graça Divina, da visão empreendedora do Mestre e da generosidade amorosa de Rajarsi, que essa grandiosa obra nasceu e agora, mais do que nunca, colhe os frutos de suas ações e sacrifícios individuais.

¹- Conforme Yogananda relata no cap. 24 da sua autobiografia, para tornar-se um swami da Ordem monástica de Shankaracharya, ele tornou-se um renunciante de laços e ambições pessoais, professando votos de pobreza, seguindo o ideal de prestar serviço altruísta a toda a humanidade. Os monges e monjas da SRF também são associados à mesma ordem indiana e professam iguais votos de renúncia. Yogananda não se considerava o "dono" da organização, mas através dela, apenas um serviçal da humanidade.

²- Rajarsi Janakanada foi indicado pessoalmente por Yogananda, para sucede-lo na presidência da SRF, o que ocorreu de 1952 a 1955.

 

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