INFÂNCIA


Mukunda Lal Ghosh

 A Autobiografia de um Iogue relata a jornada espiritual de Mukunda Lal Ghosh¹  desde os primórdios de sua vida. Nascido em 05 de janeiro de 1893, numa cidade próxima dos Himalaias indianos, desde os seus primeiros anos, sua consciência e experiências espirituais já eram reconhecidas por todos ao redor como muito além do comum.  Mukunda teve uma família numerosa e de casta alta, detalhe que ilustra sua condição social. Seu pai ocupava o cargo similar ao de vice-presidente de uma das maiores companhias ferroviárias da índia, o que, além de lhes garantir certa estabilidade financeira, os obrigava a mudar freqüentemente de cidade. Essas viagens seguramente acabaram por moldar a personalidade do pequeno Mukunda, que ainda criança empreendia fugas para o Himalaia em busca da presença de santos.

Aos oito anos de idade, Mukunda contrau o cólera asiático e foi desenganado pelos médicos. Conseguiu ser curado por meio do poder de uma fotografia do guru de seus pais, Lahiri Mahasaya, e a esse fenômeno seguiu-se uma visão que transformaria para sempre o pequeno garoto:

"Um imenso clarão de luz manifestou-se instantaneamente em minha visão interior. Divinas figuras de santos, sentados em postura de meditação em cavernas de montanhas, passavam, como imagens de um filme em miniatura, na grande tela brilhante dentro de minha testa.

- Quem são vocês?- perguntei em voz alta.

- Somos iogues do Himalaia. - E difícil descrever a resposta celestial; meu coração vibrava.

- Ah, como anseio ir ao Himalaia e tornar-me um de vocês! A visão desapareceu, mas os raios prateados expandiram-se em círculos cada vez maiores, até o infinito.

- Que maravilhoso esplendor é este?

- Eu sou Ishwara. Eu sou Luz! - A voz era de nuvens murmurantes.

- Quero unir-me a Ti!

Do  lento desvanecer-se de meu divino êxtase,  ficou-me a herança de uma  permanente  inspiração  para  buscar  a  Deus.  “Ele  é  Alegria  eterna, sempre  renovada!  “Esta  lembrança  perdurou muito  após  o  dia  do místico rapto. "

Alguns eventos determinantes na infância

A morte da mãe, à quem amava intensamente, foi comunicada a ele por uma aparição mística e intensificou sua busca pessoal por Deus. 14 meses depois que ela partiu, seu irmão mais velho Ananta lhe entrega uma mensagem deixada pela mãe em seu leito de morte:

Previsão de Lahiri Mahasaya

“Deixe  que  estas palavras  sejam minha bênção póstuma, meu bem-amado  filho Mukunda!  Chegou a hora em que devo relatar  alguns  fenômenos  extraordinários  acontecidos  após  o  seu nascimento. Conheci a senda reservada a você, quando ainda era um bebê em meus braços. Carreguei-o ao colo, naquele tempo, em visita a meu guru em  Benares.  Eu  mal  podia  ver  Láhiri  Mahásaya,  sentado  em  meditação profunda, quase escondido atrás de uma multidão de discípulos.

Eu acalentava  o meu  filhinho e,  ao mesmo  tempo,  fazia uma prece para  que  o  grande  guru nos  percebesse  e abençoasse. Minha  súplica  silenciosa crescia em intensidade; ele entreabriu os olhos e fez sinal para que me  aproximasse.  Os outros  me  abriram  caminho  respeitosamente; reverenciei-o, tocando-lhe  os  pés  sagrados.  Láhiri  Mahásaya sentou-o, Mukunda,  sobre as pernas dele,  colocando-lhe a mão na  testa, à guisa de batismo espiritual.

-  “Mãezinha,  seu  filho  será  um  iogue.  Semelhante  a  um  motor espiritual, ele conduzirá muitas almas ao reino de Deus".

 

O amuleto mágico

“Mais  tarde, meu  filho, sua visão da Grande Luz  foi  testemunhada por mim  e  por  sua  irmã  Roma;  de  um  quarto  próximo,  nós  o  observávamos imóvel  em  seu  leito.  Seu  rostinho  iluminou-me;  sua  voz  soou  com determinação de ferro quando você falou de viajar ao Himalaia em busca do Divino.

“Por  estes meios,  filho  querido,  eu  soube  que  sua  senda  está muito além  das  ambições  mundanas.  O  mais  singular  evento  de  minha  vida trouxe-me confirmação posterior - um evento que agora me impele a dar-lhe, de meu leito de morte, esta mensagem. Foi  uma  entrevista  com  um  sábio  no  Punjab, quando  nossa  família vivia em Lahore, a criada entrou certa manhã em meu quarto.

“- Senhora, um estranho sádhu² está aqui. Ele  insiste em  “ver a mãe de Mukunda “. Estas  singelas  palavras  tangeram  uma  corda  profunda  em  meu  coração.  Fui  imediatamente  cumprimentar  o  visitante.  Curvando-me  a  seus pés, em reverência, senti que estava em presença de um verdadeiro homem de Deus.

"- Mãe,  os  grandes mestres  desejam  que  saiba  que  sua permanência na Terra não será longa. Sua próxima doença será a última ." -

Houve  um  silêncio  durante  o  qual  não  me  senti  alarmada;  ao  contrário, experimentei a vibração de uma grande paz. Finalmente ele se dirigiu a mim outra vez:  

"A senhora deve ser a depositária de certo amuleto de prata. Não  lhe darei o talismã agora; para demonstrar a veracidade de minhas palavras, ele se materializará em suas mãos, amanhã, quando estiver meditando. De seu leito de morte, deverá instruir seu filho mais velho Ananta, para que guarde o amuleto  durante  um  ano  e  então  o  e  o  entregue  a  seu  segundo  filho".

"Mukunda entenderá o significado do talismã, proveniente de Grandes Seres. Ele o receberá  na  época  em  que  estiver  pronto  para  renunciar  a  todas  as esperanças mundanas e começar sua busca vital de Deus. Depois de haver conservado o amuleto por vários anos e quando este  já  tiver servido a seu propósito,  desaparecerá. Mesmo  que  esteja  guardado  no  esconderijo mais secreto, o talismã voltará ao lugar donde veio."

Uma rajada de luz desceu sobre mim com a posse do amuleto; muitas recordações adormecidas despertaram. O talismã, redondo e autenticamente antigo,  estava  coberto  de  caracteres  sânscritos. Compreendi  que  procedia de  mestres  de  vidas anteriores,  os  quais  guiavam  invisivelmente  meus passos.  Havia  outro  significado  ainda,  mas  seu  possuidor,  se  assim o preferir, pode não desvendar completamente a intimidade de um amuleto.

Esses foram os primeiros contatos de Mukunda com o mysterium tremendum et fascinam, mas esses relatos, retratados logo no início da volumosa obra de quase 600 páginas, não devem assustar aqueles que se arrepiam só de ouvir falar em fenomenologia religiosa; uma abordagem exclusivamente fenomenológica da Autobiografia seria puro reducionismo. Para além dos fenômenos, fica a lição de um homem que fez o Ocidente dialogar com o Oriente, tomando o cuidado de não enaltecer uma cultura sobre a outra.

1- Mukunda era o nome original antes da iniciação monástica, quando adotou o nome Yogananda
2- Anacoreta, quem adotou sádhana ou uma senda de disciplina espiritual.
Os trechos reproduzidos aqui referem-se aos capítulos 1 e 2.

 

O jovem iogue peregrino     Voltar Menu