A JUVENTUDE DO IOGUE PEREGRINO



Uma das coisas que mais chamam a atenção na história contada por Yogananda é a freqüência de suas viagens. Devemos ter em mente que o autor viveu no começo do século passado, quando viajar era uma grande aventura e uma necessidade básica àqueles que viviam motivados por descobrir as surpresas do mundo, que, no caso de Yogananda, sempre estiveram associadas ao seu fascínio pelo mundo espiritual.

A busca espiritual de Yogananda não se limitou às infindáveis horas de meditação e prática do yoga. Embora demonstre que seu único interesse era atingir a auto-realização através da prática de Kriya Yoga, sempre foi levado a participar da vida mundana, muitas vezes a contragosto, a princípio por imposição de seu pai e mais tarde de seu guru, Sri Yukteswar. A imagem de um iogue sentado numa caverna do Himalaia - na verdade o grande desejo almejado por Yogananda - deu lugar a um outro tipo de ascetismo, que o levou a peregrinar pelas diversas regiões da índia e mais tarde a outras regiões do mundo.

A peregrinação, no caso de Yogananda, se deu dentro dos dois conceitos clássicos do termo: a jornada interna e a deambulação pelos santuários e locais sagrados; suas andanças, descritas na Autobiografia, foram tão relevantes quanto suas práticas espirituais, o que nos leva a refletir sobre a importância que pode ter uma viagem na experiência religiosa.

Durante sua juventude buscou incansavelmente por seu guru, e nessa busca conheceu muitos sábios, santos e cientistas da Índia. Relatos de seres inimagináveis nos chegam através de suas sinceras palavras, comprovadas com fotografias no livro.

Seres singulares como Swami Prenabananda, discípulo de Lahiri Mahasaya e intitulado o "santo com dois corpos", com a inusitada capacidade de materializar seu corpo para diferentes pessoas simultâneamente; Bhaduri Mahasaya, o "santo que levitava" exercitando pranayamas poderosos ensinados por Pantânjali; Jagadis Chandra Bose, o cientista criador do aparelho que media as reações dos vegetais; o venerável mestre Mahasaya, discípulo de Ramakrishna, entre outros.

(Mukunda e seu irmão Ananta)

Milagres x Auto-realização

Ao aproximar-se desses homens nunca antes revelados ao mundo, o jovem Mukunda já apresentava um aguçado discernimento ao separar aqueles que possuiam realização interna, dos que não passavam de homens comuns exibindo poderes sem nada agregar ao espírito. Um desses casos, narrado com excelente humor, é chamado no capítulo 5 de "Um Santo dos Perfumes exibe seus prodígios".

- Quanto tempo lhe custou para dominar sua arte?
- Doze anos.
-  Para  fabricar  aromas por meios astrais!  Parece-me, honrado  santo que o senhor andou desperdiçando uma dúzia de anos, atrás de fragrâncias que poderia obter por algumas rúpias em qualquer floricultura.
- os perfumes desaparecem com as flores!
- Os perfumes desaparecem com a morte. Por que deveria eu deseja aquilo que satisfaz apenas o corpo?

E para lançar luz à inutilidade de certas habilidades miraculosas, Yogananda explica de maneira simples, a diferença entre auto-realização e milagres:

"Anos mais  tarde, mediante a realização  interna, compreendi  como Gandha Baba  efetuava suas materializações.
Infortunadamente,  o método está fora do alcance das hordas famintas do mundo. Os diferentes estímulos sensoriais a que o homem reage - táctil, visual, gustativo, auditivo e olfativo  -  são produzidos por  variações  vibratórias nos elétrons  e  prótons. As  vibrações,  por sua  vez, são  reguladas  por  prana, “vitátrons”,  forças  vitais ultra-refinadas ou energias ainda mais sutis que as atômicas; os “vitátrons”, por seu turno, são inteligentemente animados pelas cinco idéias que constituem a substância mental matriz dos sentidos. Gandha Baba, sintonizando com a força prânica por meio  de  certas práticas de  ioga, capacitava-se a dirigir os  “vitátrons” de modo a recombinar sua  estrutura vibratória e assim  objetivar o resultado pretendido.  Seus perfumes,  frutas e outros milagres eram materializações autênticas no mundo vibratório exterior e não sensações  internas hipnoticamente produzidas.

A  prática  de  milagres, tais como os efetuados pelo Santo dos Perfumes, é espetacular, mas inútil do ponto de vista da espiritualidade. Não tendo outro objetivo além do simples entretenimento, são digressões numa séria investigação de Deus. Os mestres desprezam a exibição de poderes  incomuns."

 

Encontrando o guru - Swami Sri Yuktéswar

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