Viagem à India

                  Swami Sri Yukteswar

" Volte à índia. Tenho esperado por você pacientemente durante quinze anos.  Em  breve,  nadarei  para  fora  deste  corpo,  rumo  ao  Domicílio Esplendoroso. Yogananda, venha!"

"Quinze anos! “Sim, estamos em 1935; passei quinze anos na América, propagando os ensinamentos de meu guru. Agora ele me chama."

Em 1935 ao receber esse comando interno vindo telepáticamente de Swami Sri Yuktéswar, Yogananda retornou à sua amada India, acompanhado de Ríchard Wright, (irmão de Sri Daya Mata presidente da SRF) e outra discípula, Ettie Bletch.

Nesse capítulo (39), ele destaca a generosidade de seu discípulo, Rajarsi Janakananda que financiou a viagem e nos permite ver seu senso prático relacionado ao futuro da organização que fundou, que tratou de providenciar antes de partir. Ele conta:

    " Em março de 1935, registrei a “Self-Realization Fellowship”(SRF), segundo as leis do Estado da Califórnia, como organização não-sectária e não-lucrativa, destinada a existir perpetuamente. Doei à SRF tudo o que me pertence na América, inclusive os direitos autorais de todos os livros escritos por mim. SRF sustenta-se com a venda de minhas obras e com doações de seus membros e do público, à semelhança da maioria das instituições educacionais e religiosas."

Mas ele não seria o peregrino yogue, se antes de pisar nas terras indianas, não percorresse outras paragens. Aproveitou a entrada por Londres para viajar, após a pequena estada na Alemanha, para alguns países da Europa, visitando santuários. Cruzando o Mediterrâneo, chegou à Palestina e percorreu a Terra Santa, onde, segundo suas palavras, "mais do que nunca me convenci do valor da peregrinação".

Depois da Palestina, ainda teve fôlego para viajar ao Cairo; desceu o mar Vermelho, cruzou o mar da Arábia e chegou à índia, onde permaneceu um ano, até sua volta à Califórnia.

Seu relato, recheado de sabedoria como em toda a obra, guarda espaço para um certo despojamento e um humor que surpreende aqueles que esperam que relatos espirituais sejam necessariamente sério e piedoso; Yogananda simplesmente foge desse perfil e isso confere à sua Autobiografia uma agradável imersão nos costumes e na religiosidade indiana.

Uma das muitas passagens interessantes, principalmente para quem se interessa por fenômenos sobrenaturais, se dá quando, no caminho para a índia em 1935, Yogananda faz uma visita a Teresa Neumann, a Estigmatizada Católica, numa cidadezinha na região da Baviera. Através das palavras de Yogananda, temos um relato marcante sobre essa mulher que, negando todas as leis naturais, viveu mais de três décadas alimentando-se de uma única hóstia consagrada por dia e, para espanto de quem estivesse presente, sofria todas as sextas-feiras (depois somente em alguns dias santos), no próprio corpo, as agonias que Cristo sofreu em seu martírio, perdendo grande quantidade de sangue através das chagas que se abriam. A atitude de Yogananda, em muitos momentos, se equipara à atitude de um cientista da religião, o que confere à sua Autobiografia uma rica fonte de pesquisa àqueles que se interessam pelo fenômeno religioso.

Durante um ano de permanência na India, ele palestrou em diversas cidades por todo subcontinente, e foi nesse período que descreveu suas impressões mais marcantes. Além de Gandhi, encontro cujo relato ilustra dignamente a importância das idéias do Mahatma e o qual pediu para ser iniciado em Kriya Yoga, Yogananda escreveu sobre seu encontro com duas mulheres santas, Ananda Moyi Ma (a "Mãe impregnada de Alegria") e Giri Bala (a "Santa que não se alimenta"), quando então somos apresentados a um universo estranhamente familiar: a história dessas santas hindus não se diferencia muito dos relatos hagiográficos das santas católicas. Outros relatos não menos importantes, ocorreram com o prêmio Nobel de física Sri C. V. Raman, o mestre Sri Ramana Maharishi, entre diversas personalidades que tornaram-se mundialmente populares através da Autobiografia.

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Contudo, em meio às contínuas revelações incomuns acerca da espiritualidade, destaca-se sobremaneira o aspecto humano e amoroso do autor do livro, quando se viu diante dos famíliares e de seu venerável guru:

"Papai  abraçou-me  como se eu regressasse dentre os mortos;  longamente  nos  fitamos, mudos  de  alegria.  Irmãos  e irmãs, tios,  tias, primos, discípulos e amigos do passado agrupavam-se ao meu redor, todos com os olhos  úmidos.  Agora transferida aos  arquivos  da  memória, a cena da afetuosa  reunião perdura  vividamente,  inolvidável ao meu  coração. Quanto ao  meu encontro  com  Sri  Yuktéswar,  faltam-me  palavras;  permitam-me transcrever, suficientemente, a seguinte descrição de meu secretário": (* Ríchard Wright)

“Hoje, pleno das mais sublimes expectativas, conduzi Yogananda, em nosso Ford, de Calcutá a Serampore. (.......) Com grave humildade, atrás de Yoganândaji, penetrei no pátio, dentro dos  muros  do eremitério.  Nossos  corações  pulsando aceleradamente, subimos  alguns  degraus  de  cimento,  pisados,  sem  dúvida,  por inúmeros buscadores  da  verdade. Nossa  tensão  crescia  agudamente, à medida  que avançávamos. À nossa frente, no alto da escada, apareceu silenciosamente o Grande Ser, Swâmi Sri Yuktéswarji, de pé, em nobre atitude de sábio.

"Meu  coração,  arfando,  dilatou-se  pelo privilégio abençoado de  estar em  sua  sublime  presença.  Lágrimas  toldaram  meu olhar ávido quando Yoganândaji  caiu de joelhos e  ofertou, com  uma  inclinação  de  cabeça, as saudações e o agradecimento de sua alma,  tocando com a mão os pés do guru e, a seguir, em  humilde obediência, a  sua  própria  testa. Então se levantou e foi abraçado, dos dois lados do peito, por Sri Yuktéswarji. Palavra nenhuma se pronunciou de início, mas um sentimento intenso era expresso em mudas frases da alma. Como seus olhos resplandeciam no calor do encontro! Uma vibração de ternura espraiou-se pelo tranqüilo pátio e o sol repentinamente se esquivou das nuvens para acrescentar um fulgor de glória."

“De joelho em terra, diante do mestre, ofereci-lhe meu agradecimento e amor indizíveis;  tocando-lhe os pés calejados pelo tempo e pelo serviço, recebi sua bênção,  Levantei-me em  seguida  e fitei seus belos olhos profundamente íntrospectivos mas radiantes de ventura." (........)

“O júbilo de Swâmi Sri Yuktéswarji é obviamente intenso pelo regresso de seu “produto”(e  ele  parece  um  tanto  curioso  acerca  de  mim, o “subproduto”).  Contudo, o predomínio de sabedoria na natureza  deste Grande Ser impede a exteriorização de seus sentimentos." (................)

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Morte e Ressurreição de Sri Yuktéswar

Muitas narrativas transcorrem ao longo das caminhadas de Yogananda pelo solo indiano; durante essa viagem Swami Sri Yukteswar conferiu à ele, o maior título espiritual da Índia - Paramahansa -  literalmente, "cisne supremo". Esse título significa aquele que manifesta o estado supremo de comunhão ininterrupta com Deus. Sri Yuktéswar também transferiu ao seu dileto discípulo seus bens e seu Karar Asrham de Puri, os quais Yogananda incorporou à Yogoda Satsanga, sua organização indiana, vinculada à SRF. Finalmente, confirmando o aviso que dera à Yogananda, no dia 09 de março de 1936, entrou em mahasamadhi.(* saída consciente do corpo pela última vez), com a idade de 80 anos. Mas a separação entre guru e discípulo durou pouco tempo. Tres meses depois, Yogananda nos surpreende no capítulo 43, com a ressurreição de Sri Yukteswar, o qual se materializa para Yogananda em um quarto de hotel e descortina os mistérios da vida em outros planos de existência.

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