YOGANANDA ENCONTRA SEU GURU SWAMI SRI YUKTÉSWAR


Em 1910, com a idade de 17 anos, finalmente Yogananda encontrou seu tão procurado guru, Swami Sri Yukteswar Giri, conhecido como "a encarnação da sabedoria". Ele relata nesse capitulo que no dia do memorável encontro, sofria com a inadequação de um eremitério onde havia ingressado pouco antes, e buscou conforto em seu misterioso talismã, mas como fôra previsto, ele desapareceu. Um breve trecho:

"Dilacerado de  angústia  espiritual, entrei certa madrugada no sótão, resolvido a orar até que uma resposta me fosse concedida.

- Misericordiosa Mãe  do  Universo,  ensina-me  Tu mesma  através  de visões ou através de um guru enviado por Ti!

Horas  decorreram  sem  que minhas  súplicas,  pontilhadas  de  soluços, tivessem resposta. De súbito, senti-me como se fosse erguido corporalmente a uma esfera ilimitada.

“Teu Mestre  vem hoje!  “- Uma  celeste  voz  feminina  veio de  todas as partes e de parte nenhuma.  

 Em seguida ele foi interrompido pelo chamado de um outro clérigo, para uma incumbência externa:

"Em outro dia, eu teria, provavelmente, respondido com  impaciência; agora,  enxuguei  minha  face  entumecida  pelas lágrimas e mansamente obedeci à intimação. juntos, Habu e eu saímos para um distante mercado, na seção bengali de Benares.  Enquanto Habu  e  eu  prosseguíamos,  voltei minha  cabeça  para examinar uma viela estreita, imperceptível."

Um  homem de aspecto crístico, em  suas  roupas  ocres  de  swâmi, permanecia  imóvel  no  fim da  viela. Pareceu-me  instantaneamente,  e  há muito  tempo,  familiar; por um momento, meu olhar ávido demorou-se nele.

Em seguida, a dúvida me assaltou. “Você  está  confundindo  este monge  errante  com  alguém  conhecido”, pensei. “Sonhador, continue seu caminho.”

Dez minutos depois, senti em meus pés uma dormência pesada. Como se  tivessem  virado  pedra,  eram  incapazes  de  me levar  adiante. Laboriosamente  dei  meia  volta;  meus  pés  reconquistaram  a  normalidade. Voltei-me na direção oposta; de novo, o curioso peso me reteve. “O  santo  está me  atraindo magneticamente!” Com  este  pensamento, empilhei meus  pacotes nos  braços  de Habu. Ele  estivera  observando  com assombro minhas caminhadas erráticas e agora estourava de riso.

Um  tumulto  de  emoções  impedia-me  qualquer  réplica;  em  corrida veloz, afastei-me silenciosamente.

Voltando atrás em meus passos como se estivesse calçado com asas, atingi  a  estreita  viela.  Meu  rápido  olhar  descobriu  a  tranqüila  figura  que olhava firmemente em minha direção. Alguns passos ansiosos e eu estava a seus pés.

- Gurudeva!

- Sua  face divina era a mesma que eu vira em milhares de visões. Estes olhos de alcíone, numa cabeça leonina com barba em ponta e  mechas  de  cabelo  flutuante, haviam freqüentemente  assomado  na escuridão  de meus  devaneios  noturnos, penhor de  uma  promessa  que  eu não compreendera inteiramente.

-  Você  que  é  meu,  você  veio  a  mim!  -  Meu guru  pronunciou  estas palavras repetidas  vezes,  em  bengali,  com  a  voz  trêmula  de  júbilo.  Há quantos anos esperei por você!

E nós nos sumimos em silenciosa unificação; as palavras nos pareciam da mais grosseira superfluidade, a eloqüência  fluía em cântico  insonoro do coração  do  mestre  ao  do  discípulo.  Com  uma  antena  de  incontestável percepção interior, senti que meu guru conhecia Deus e me levaria até Ele. A obscuridade de minha presente vida desvaneceu-se numa  frágil madrugada de memórias  pré-natais.  O  tempo  é  um  drama  cujos  três  atos,  passado, presente e  futuro, são cíclicos.  recorrentes. Este não era o primeiro sol que me surpreenderia prostrado ante aqueles santos pés.

Com  minha  mão  na  sua, meu  guru conduziu-me  à  sua residência temporária,  na  seção Rana Mahal  da  cidade.  Sua  figura atlética  se movia com passo firme,  Alto,  ereto, naquela  época  com  55  anos,  era  ativo  e vigoroso  como  um  jovem.  Seus olhos  escuros  eram  grandes,  belos, de sabedoria insondável. O cabelo levemente ondulado suavizava uma face de marcante poder. A força mesclava-se sutilmente com a gentileza.

Enquanto  nos  aproximávamos  do terraço  de  pedra de uma  casa sobranceira ao Ganges, ele me disse afetuosamente:

- Eu lhe darei meu eremitério e tudo quanto possuo.

- Senhor, vim para obter  sabedoria e percepção de Deus. Estes  são, de seus tesouros, os que busco!

O rápido crepúsculo da  índia  tingiu-se de meias-tintas, antes que meu mestre falasse outra vez. Seus olhos concentravam insondável ternura.

- Dou-lhe meu amor incondicional.

- Amá-lo-ei eternamente, Gurudeva!

-  O  amor comum é  egoísta, obscuramente  enraizado  em  desejos  e satisfações.  O  amor  divino  é  incondicional,  ilimitado,  imutável.  As volubilidades,  do  coração  humano desaparecem  para  sempre  ao  toque extasiante  do  puro  amor.

Ergueu-se, então, na sombra que se adensava, e guiou-me a uma das peças  no  interior  da  casa.  Enquanto  comíamos mangas  e  doces  de amêndoas,  foi  discretamente  entremeando,  em  sua  conversação,  um conhecimento  íntimo  de minha natureza. Eu me  sentia maravilhado  com  a grandeza de sua sabedoria e seu delicado matiz de inata humildade.

- Não se aflija por seu amuleto. Ele serviu a seu propósito.

Como um espelho divino, meu guru captara claramente o reflexo de minha vida inteira.

 

 

Em grande parte do livro, Yogananda homenageia as tres pessoas que mais tiveram influência em sua espiritualidade e cujas vidas estavam intimamente ligadas à sua trajetória: Mahavatar Bábaji, intitulado o Cristo Yogue da India Moderna e guru de Lahiri Mahasaya. Lahiri, guru de seus pais e de seu próprio guru Swami Sri Yuktéswar. E este último, que o preparou à pedido de Bábaji para difundir a Kriya no Ocidente. No eremitério de Sri Yuktéswar, Mukunda viveu dez anos, recebendo o treinamento de seu mestre. Em 1935, ele ingressou na antiga ordem monástica dos Swamis¹, ocasição em que teve seu nome de batismo substituído pelo de Yogananda;² seu ardente desejo por consagrar sua vida ao amor e serviço a Deus havia sido realizado e nascia ali um dos mais notáveis iogues conhecidos no mundo ocidental.
Em 1935, quando retornou à India, Sri Yuktéswar conferiu-lhe o título religioso mais elevado dessa ordem, o de Paramahansa.³  

 

 

¹- No cap. 24 da sua autobiografia, Yogananda explica o funcionamento dessa antiga ordem monástica de Shankaracharya. Um swami torna-se um renunciante de laços e ambições pessoais, professando votos de pobreza, seguindo o ideal de prestar serviço altruísta a toda a humanidade. Os monges e monjas da SRF também são associados à mesma ordem indiana e professam iguais votos de renúncia. Yogananda não se considerava o "dono" da organização, mas através dela, apenas um serviçal da humanidade

²- Nome sânscrito para indicar Deus ou Criador do mundo Do sânscrito ananda, "bem aventurança" e yoga, união. Escolhido pelo próprio autor da Autobiografia, Yogananda significa "bem-aventurança através da união divina".

³- Do sânscrito pa-rama, supremo, e hansa, cisne, o título simbolicamente se refere ao cisne sagrado que serve de veículo a Brahma, o criador do Universo. Diz a lenda que esse cisne sagrado teria a capacidade de sorver apenas o leite, de uma mistura de leite e água, numa clara alusão a viveka, discernimento.

   

 

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